terça-feira, 15 de junho de 2010

A BOA LITERATURA E A ARTE DA SALSICHARIA

Negócio seguinte: ADORO romances, novelas, histórias longas e envolventes, boas de levar pra cama e dormir agarradinho, como tudo que presta na vida. Pra meu pesar, contudo, descubro agora que uma coisa é gostar e outra, bem diferente, é fazer.
Acostumada a escrever contos, crônicas, peças curtas, em que cada palavrinha é uma pérolazinha a ser buriladinha, sofro pra caramba ao tentar escrever páginas e páginas de uma história que depende, tanto quanto de boa trama e bons personagens, de uma boa dose da arte de fazer salsichas, ou seja, encher lingüiça. Porque não dá pra criar universos sem povoá-lo direitinho com grandes e minúsculas figuras, e contar como são, como pensam, o que fazem, se a rua é empoeirada, o carteiro passa duas vezes, tem formiga na grama, senão o leitor se manda e vai se chatear em outra freguesia, certo?
Aí, é que entra minha sinuca de bico (pra vocês se darem conta da clichezada em que estou metida) porque sou, basicamente, alguém que não VÊ as coisas, que passa horas num estacionamento procurando um carro que está bem à sua frente, que nunca lembra a cor dos olhos ou vestimenta de quem acabou de encontrar, que passa por detalhes como uma patrola, ou seja, não contem comigo pra dar a placa do carro do bandido pra polícia. Razoável em passar a impressão das coisas, sou péssima em descrevê-las, logo, a coisa fica preta na hora de escrever esse troço maçudo que o Fischer tá querendo de nós. Pra piorar, me vejo às turras com um personagem ou a maneira de apresentá-lo, fico com vontade de desenvolver dez linguagens diferentes e a firme convicção de que não tenho a menor capacidade pra isso.
Daí pra entrar em parafuso com questões filosóficas fundamentais é um passo: quem sou? Para onde vou? O que esse raio de personagem quer comigo? Dá pra comprar talento em consórcio? Tem ghost writer pra oficineiro? O fantasma da ópera existe mesmo?
Então resolvi apelar pra essa conversinha com vocês, já que na aula não dá tempo pra trocar figurinhas desse naipe, lá o assunto é sério, crise não vale. Me digam: tá difícil pra vocês também? Como se cria mundos em sete dias sem levar chapoletada do Darwin na saída? Vale a pena se a história não é pequena? S.O.S.