segunda-feira, 14 de abril de 2008

VACA AMARELA

Se tem uma coisa que sempre esqueço é o nome das crateras da lua. Dizem que tem um ponto que nunca é completamente escuro nem claro, uma espécie de limbo lunar onde os finlandeses, que tem um verão ridículo de tão pequeno, provavelmente adorariam morar, ainda mais com a Terra posando de lua pra eles.
Eu também gostaria de dar uma chegadinha lá. Não pela luz (a de Porto Alegre no outono dá de dez a zero), nem pela companhia (gelado por gelado prefiro picolé) mas pelo silêncio, supondo-se, claro, que os finlandeses não levem seus nokia pra lá, eles são muito apegados a seus inventos. Me imagino com os pés balançando a beira do Mar da Serenidade – nome bonito demais pra uma cratera, mas os cientistas são uns românticos, mesmo quando acertam no nome e erram na substância (cadê o H2O?) – na maior paz, esperando que um monolito apareça e me dê resposta pra tudo ou, na falta de deus, um astronauta disposto a tudo.
A vista do nosso planeta cintilando de azul no horizonte também deve ser de encher os olhos, uma razão a mais para arranjar um namorado de arrancada. Tímido, de preferência, pra poder curtir a quietude sem chiado.
Tirei uma palhinha do que seria isso quando estive na Patagônia. Horas e horas de viagem por entre pó, pedra, vento e ovelhas, até chegarmos a um bosque petrificado onde nada se via ou mexia. Chamar de ‘bosque’ uns troncos pedregosos espalhados por terra a perder de vista é um primor de exagero, mas os hermanos fazem bem em preservá-lo – em algum lugar do mundo temos que nos dar conta de nossa insignificância.
Afastei-me do grupo e fiquei lagarteando sobre uma rocha, apreciando o raro momento de calor depois de suas semanas em meio às geleiras do extremo sul. Comecei a sentir um zumbido nos ouvidos. Pensei em insetos, mas uma boa olhada em volta mostrou-me onde me encontrava: em meio ao nada na enésima potência, algo assim. Nem um mosquitinho pra chamar de meu.
Percebi então que o zumbido não era sinal de presença, mas de absoluta ausência de qualquer som. Acostumados a buzinas, gritos, estampidos, sirenes e funk por todos os lados, os tímpanos vibravam é de abstinência. Uma variante do ‘delirium siemens’, creio eu, que tanto aflige os brotinhos de celular, porém com seqüelas mais positivas – aprendi a amar espaços vazios.
A Terra é tagarela. Não pára quieta um instante. Zumzumzum, lerolero, disque-disque, rrrrrum-rrrrrum, baticum, sons que se multiplicam em velocidade geométrica inversa à de seu conteúdo e apenas duas orelhas pra todo serviço.
Se a intenção por trás dessa zoeira toda é avisar pra via-láctea que, ssssim, estamos aqui, dou a maior força, mas se for só pra atordoar chapeuzinho enquanto seu lobo não vem, então, bródi, tá mais do que na hora de calar o bico e aprender a ouvir. Em algum lugar do espaço asas farfalham sobre nós.
Vaca amarela!

domingo, 13 de abril de 2008

ME ENGANA QUE EU GOSTO

O segredo foi passando de mão em mão, bem dobrado e amarrotado como convém aos segredos. Dei uma lida rápida e o enfiei no fundo da bolsa, onde apodreceria entre restos de engov, tocos de batom e canetas estéreis, não fosse o mestre ditar o jogo: deveria ser apropriado, alterado e exposto perante todos, sob os auspícios do bem fazer literário, cada um com o seu alheio. Coube a mim nesse gerúndio: “traí, traí não movida pelas circunstâncias mas pela vontade, traí com gosto, traí porque quis”.
Dá-lhe guria! Bota chifre e não se arrepende! Pena que teve que socá-lo pra dentro da mentira antes que ele lhe explodisse na cara. Daí o segredo, que só conheceu a luz graças ao anonimato de uma sacola cheia deles, distribuídos aleatoriamente, com grande chance de terem todos o mesmo tema: traição. Eu sou teu, você é minha e ninguém mete a mão até ordem o contrário. Ahã.
Não sei quem teve a infeliz idéia de botar cabresto no sexo, mas desde então pagamos todos os pecados para tentar provar que civilizadinhos somos. Ora, nada mais selvagem do que pactuar que não somos animais. Sexo é foda. Simples assim. Precisa dizer mais?
Para a maioria dos amantes e dos governos, precisa.
O ex-governador de NY, por exemplo. Tem que ser muito puritano ou burro pra olhar o sujeito e não se dar conta do que é feito, o cheiro deve ser perceptível a quilômetros. No entanto, construiu sua carreira perseguindo aquilo que de fato o perseguia: ver a coisa pegar fogo. Por azar, ardeu no seu. Teve que levar a mulher, com a maior cara de chucrute do mundo, pra pedir perdão em rede nacional por ser o hipócrita que poucos duvidavam que fosse. Para apimentar o prato cheio da reviravolta política, uma pitada de puta pátria – era brasileira a queridinha do chefe. O paraíso do turismo sexual infantil agradeceu a referência recebendo a moça com honras de galisteu, galardão atribuído apenas a quem dá pra rock star, mesmo assim só depois de confirmada a prole ou o programa de TV. Coisa fina mesmo.
Com tanto alvoroço, só restou ao rei da maçã renunciar e recolher-se ao lar, doce lar, na companhia da esposa que a essa altura deve estar reinventando mais e melhores usos para a palavra ‘inferno’. Fustigado pelo exemplo do antecessor, o que faz o novo governador ao tomar posse? Também na companhia da sua ilustríssima confessa, em coro com ela: sou pecador! sou traído e traidor! mea culpa, mea maxima culpa!
Good for you, panaca. Todo mundo sabe que sexo & poder são um binômio imbatível na história da humanidade, os troianos que o digam, mas submeter o interesse público ao pêndulo de um pênis é reduzir a política a um reality show vagabundo, coisa que nem mesmo ianque merece, a despeito de ser sua a estratégia de botar na conta do Freud o que seria da conta do Marx.
Se sob os holofotes o papo é esse, entre os amantes não poderia ser diferente. Seja no público, seja no privado, sexo é, sim, pau pra toda obra. Instrumento de dominação e libertação, é por ele que nos definimos e matamos, como gente e como tribo. Assim, os cornos que me perdoem, mas trair é fundamental.
Ainda bem que Madame Bovary não sou eu.