Há muitas coisas para suscitar saudade, mais ainda em quem
passou por virada de século e milênio, como eu, que tem que explicar que k-7 e
cacete não eram a mesma coisa e que gravador de rolo não significa registro de muvuca
ou coisa que o valha, entre tanto que se foi, para o bem e para o mal. Entretanto,
do que mais sinto falta, é do ambiente de convivência que se usufruía seja no
lar, seja no trabalho. Era assim: toda família ou ambiente profissional tinha
pelo menos um integrante do time ou do partido contrário a todos os demais.
Motivo de constante provocação e chacota, óbvio, e que às vezes resultavam numas
altercações mais pesadas, que acabavam se resolvendo com um chope um ou um
chimarrão. Dependendo do resultado do jogo ou da eleição, a flauta era
garantida para ambos os lados, mas espumar de ódio porque seu time ou partido
perdeu, isso eu nunca vi. Até agora. A velha flauta do futebol ou da política
está perdendo a vez para a raiva, adversários viraram inimigos e inimigos devem
ser exterminados. Simples assim. Grotesco assim. E não adianta apelar pra
consciência das elites ou coisa que o valha, a consciência que precisa ser
despertada é a que está dentro de casa, em cada família que antes abrigava os
diferentes com afeto e que agora torna-se célula de outro ódio. Pra que? Por
quem? Com que propósito? Não pretendo pintar de rosa um tempo que já não
existe, nem ocultar os conflitos que pipocavam em todos os lugares e o preço
que pagamos por isso, mas essa convivência, a possibilidade de trocar ideias
sem pular no pescoço do outro ou sem desqualifica-lo da cabeça aos pés, isso
tem que ser possível. Porque algum dia sairemos dessa crise e precisaremos
conversar a respeito, traçar as metas e os meios de obter o que uma sociedade
justa e organizada precisa, e isso só se consegue no papo, não tem outro jeito.
Uma coisa é certa: começa em casa, na vizinhança, no prédio, no trabalho. Antes
de xingar, converse, antes de rosnar, vale a pena rir. Tente. (E quem me odiar
por ter escrito isso, sugiro: música, muita música).
Um lugar que Claudio Santana semeou para Clarice Muller escrever e apreender, como é da boa arte a vida colhida.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
segunda-feira, 20 de abril de 2015
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
SALTO NO ESCURO
Entre as várias formas de morrer ou
matar, há sempre uma preferida: a que não é a sua. JP não escolheu aquela
morte, aquele dia, o modo. Morreu numa idade em que botinas desamarradas
combinam com calças justas, cavanhaque e garotas que conversam muito enquanto
dão. Para essas garotas talvez a morte de JP não causasse surpresa, fechava com
o ar de tô nem aí que lhe cairia melhor ainda se, de fato, ele fosse Rimbaud.
Mas não era. Seu estilo literário era não ter estilo algum. A literatura era
seu tatame existencial: quanto mais plúrimo, multiplicado, desconexo, melhor o
exercício. Jamais se repetia, era o que pensava. Homens contemporâneos não se
fixam no passado, homens jogam.
O outro lado de JP chamava-se Rob (leia-se Rob), usava botinas, calças
justas e cavanhaque com o mesmo aplomb e comia garotos que não falavam enquanto
trepavam e não falavam em geral. Rob era critico, Rob era a porra da pedra no
sapato de JP, que se desdobrava pra demonstrar que não dava a mínima, mas todo
mundo sabia que dava, como dava. Quando saiu o primeiro livro de JP, “Adiós,
tio Chico”, Rob o devorou ao cabo de uma noite drunks & drugs na companhia
de dois dançarinos da Madona que só vendo, e ficou tão agradecido por ter
conseguido beijar os pés da Deusa, que decidiu ser bonzinho com o primeiro que
lhe caísse em mãos, JP no caso. Para sustentar, a seco e na cara do editor, a
merda que jogou na rede como sendo o novo ginsberg dos tamoios paulistanos, Rob
desenvolveu teses que até agora respingam na reputação de ambos, criador e
criatura. Pra consciência não pesar, de vez em quando repete a louvação pra
outros novatos, mas com mais cautela: só leva quem come.
O day after de JP foi outra coisa. Também foi ao show da Madonna, mas
não comeu nem bauru na esquina, foi deitar com uma dor de cabeça insana,
vomitou uns troços verdes e acordou com o pior humor do mundo, o que de raro
nada tinha. A última ex dele dizia que se aprendesse a rir das coisas talvez
melhorasse aquela vida que ela deixou pra trás com muito gosto. Ele deu umas
tenteadas nesse sentido. Mais Sacha Baron menos Woody Allen, mais rumba menos
stockhausen, mais caminhadas, feira livre, sol e amassos embaixo da escada,
coisas do tipo. Aprendeu que não dá pra esperar melancia quando se planta
abóbora.
Também não dá pra esperar sucesso quando se escreve pra público tão
reduzido que se conhece todos pelo nome. Adiós,
tio Chico foi impresso com dinheiro de concurso, e JP não faz ideia de como
foi parar na cabeceira de Rob, muito menos como fez pra merecer as loas que com
o tempo viraram maldição, mas o fato é que a partir daí pintaram entrevistas,
fotos saraus-feiras-lançamentos e, aos poucos, sem quase se dar conta, JP
passou a ser conhecido por gente cujo nome desconhecia. Aí começaram as
perguntas. E, em algum lugar ainda hoje ignorado, sua morte começou a ser
tramada.
2
A pedra. A pedra no sapato. Por que disse aquilo? E justo para a plateia
que tenta emular seus passos como se ponte aérea fosse o sonho dourado de todo
escritor. Aqueles ali não deviam saber do que falava. Não tinham ideia do que
era vender caneta e bala de goma na sinaleira, aguentar atraque de pé rapado na
ponte da amizade, achaque de policial na chegada, na ida, na volta, o tempo
todo, como se aquelas bugigangas compensassem o esforço das longas madrugadas
que não conhecem conforto ou recompensa, à puta que os pariu todos eles, seus
merdas, vocês também, aí sentados sobre o carpete porque chão é descontração e
tudo flui melhor quando a gente rasteja porque quer, não porque precisa. PQP.
Fazer de conta que a transição foi moleza, um bocado de esforço, outro tanto de
estímulo e você está lá, sendo festejado pela bicha mais prestigiada do
planeta-letra a ponto de não saber como sustentar a fama com o próximo livro, o
da gaveta emperrada, terceira abaixo da sua linha de tolerância zero com os
calados de espírito, hora em que a biografia ajuda, exemplos de superação são
um must na plateia cult, que venga el toro. PQP. Fecha a cara, franze bem a
testa pro povo entender que o assunto é sério, sofrimento, inconformidade, é
disso que se trata a grande arte mesmo quando você consegue faturar legal com
as viagens, projetos, saraus, curadorias, artigos, ensaios, a única coisa que
não te dá um puto é o pobre do livro sobre o qual o Rob disse maravilhas e que
você, meio displicente, meio sincero, renega no meio dos íntimos, a saber: ela.
A verdadeira pedra. Ela.
Bem antes de a cabeleira ruiva lustrar sua face durante a cavalgada mais
a foder da sua vida, ela já tinha feito estrago onde você se esconde desde
sempre. Homens durões não resistem a mulheres safadas, dizem os livros de
faroeste que foram substituídos na estante por Proust, Joyce e outros chatos de
galocha, porque tudo faz parte da escalada, a grande escalada onde o ser e o
nada é sacrificado em nome da ‘artificialidade necessária’ da literatura
contemporânea, o que não invalida o fato: homens durões não resistem a mulheres
safadas, o diabo seja louvado! E ela está ali, no meio do caminho, a sua pedra.
Cada mordida, suor, enfiada, cada segredo sob o lençol, cada verdade prometida,
cada susto, cada raiva, cada sonho e cada promessa, cada canto de cada um se
tornam uma palavra a menos, um verbo que se perde, um livro que não será. E você
sabe disso, sabe como ninguém. Também sabe o que precisa ser feito. Que há
várias maneiras de morrer e matar. Que chegou a hora. Então, debruçado sobre a
escrivaninha onde tudo começou, você chora feito criança.
3.
Eu só queria dizer uma coisa: não é nada divertido passar a noite toda
ouvindo Maysa, Nina Simone, Amy, sem cigarros e gilete por perto pra
radicalizar o espírito, não mesmo. Um espelhinho empoado já servia. Mas nada. A
porta continuou batida e fechada, meu corpo voltado para o lado da cama onde
teus amados bardos franceses da idade média se amontoam em desordem intocável.
Nas calmarias do choro retomei várias vezes o manuscrito da discórdia: Entre as
várias formas de morrer ou matar, há sempre uma preferida. A frase me arrepia.
Como a lâmina que você percorreu do cóccix ao pescoço, vértebra por vértebra
até a ponta da minha nuca quando um, dois, três! e no três! senti a picada e a
força do meu homem sentado sobre minhas costas nuas, pau e ferro prensando no
ponto em que um espirro pode ser fatal, a pequena morte aliciando a grande e
tudo em nome do que, exatamente? Amor? Difícil acreditar nisso. A faca no
pescoço não deixa. A raiva, essa raiva que vem disfarçada de crítica imparcial,
crueldade necessária, esse tipo de joguinho intelectual que esgrimas dia a dia
e que, confesso, me dá nojo. Mas não vou polemizar contigo, não mais. Deixo
isso para os conclaves onde quase não te convidam mais, claro que por culpa
minha, a nova sensação dos saraus e, pior, sucesso de vendas! Não adianta eu
dizer mil vezes: é só literatura, querido, Baker Street 221-B não existe, Molly
Bloom fala demais, só os bisontes das cavernas sobreviverão aos homens. Nosso
medíocre destino é comum, não nascemos pra Cervantes, fazer o que? Inveja é
desperdício, JP, mas se teu caminho é me renegar, ferir, que assim seja. Não
diga que não te avisei. Também já fiz minha escolha. Adivinha qual é.
Vou para a sala e me preparo. Posição de lótus no futon para alinhar
físico e mente. Elementar. Abdômen teso, braço esquerdo apontado para o alto, o
direito bate no abajur, o troço cai, calma, calma, chega de lótus, nada
funciona, os dentes rangem direto, deu pra mente quieta, espinha ereta e coração
tranquilo. A geração xilocaína, da qual faço parte,
aconselha cautela, um passinho à frente, faz favor, mas isso é coisa de quem
não compra corda com medo de se enforcar. Meu negócio é jump, jump, jump!
Repita comigo: Entre as várias formas de morrer ou matar, há sempre uma
preferida. Estendo os lençóis, recolho as roupas, desligo o som, bebo a segunda
xícara de café preto, forte, sem açúcar, lavo a louça, guardo as facas no
estojo, uma na bolsa – não custa – e saio. Quero manter na pele as marcas todas
e, se vacilar, que teu cheiro me acompanhe até o fim. Quando alcanço a rua, o
figurino já é outro, preto, altivo, seguro, Milady de Winter da cabeça aos pés,
só falta o anel que forja a vingança. (Gostou? É assim que se vende livro,
baby, apelando pro atávico). E quando eu entrar na biblioteca onde a tese
inacabável é pretexto pra fugir de mim, não escutarás meus passos subindo a
escada, não conhecerás a maciez das luvas pretas que estico até os punhos, nem
o farfalhar dos livros que se deslocam devagar às tuas costas, sequer
perceberás que a Comédia Humana se joga toda sobre ti, vinte volumes, edições Galimard,
capa dura, junto com a estante metálica que, ups!, cai pelo excesso de peso.
Corroída pela dor, mandarei gravar, na urna que abrigará tuas cinzas, a frase
preferida: Entre as várias formas de morrer ou matar, há sempre uma preferida:
a sua.
4.
Salto no escuro, quarto volume da
coleção Revivendo os clássicos, faz
jus aos personagens que a inspiram. No caso, Milady de Winter, a antagonista
inesquecível de Dumas em Os três mosqueteiros, é soberbamente reinventada por
Aramis, cujo nome também daí deriva. Num estilo que está qualquer coisa entre o
desbocado e um conto moralista do começo do século 20 (digo isso em relação ao
tom meio fabular, episódico, parece locução em off de filme de Tim Burton ou
Wes Anderson), a obra tem como ponto de partida a conturbada relação da autora
com o também escritor JP, que na década passada usufruiu de relativa fama no
meio literário, até sumir de cena num incidente até hoje não esclarecido. Ao
leitor desinformado: Aramis, autora de Salto
no escuro, despontou como a maior revelação literária desde Clarice ao
vencer o concurso Portugal-Telecom em que seu parceiro não se qualificou para
as finais e, dizem as más línguas (más? Quando se trata de JP nada é mau o
bastante, se me permitem a franqueza), foi o estopim para a escalada de
conflitos que são narrados com maestria no livro. A frase de abertura do
romance joga o leitor numa trama que não se consegue largar até o fim: “Entre
as várias formas de morrer ou matar, há sempre uma preferida: a que não é a
sua.” Capítulo a capítulo somos enredados nos conflitos de JP com sua infância
difícil, a morte dos pais e irmãos numa parada de ônibus, o primeiro contato
com os livros, a dura vida de camelô, as oficinas literárias, o livro pago com
as próprias economias, a repercussão, o sucesso, as traições dos amigos, as
relações amorosas, o trágico fim. Aramis consegue atingir o tom certo na
descrição do encontro final do casal (alerta de spoiler!) na biblioteca da
universidade onde ocorre a luta corporal, o sangue abundante, os gritos, o
descontrole, a escada que balança e cai, JP sendo soterrado por 56 volumes dos
Arquivos do Inferno que foram renegados por P. Coelho (material para novo
Best-seller, façam suas apostas, meus senhores). A narrativa tem um ritmo
impressionante e ao final da cena fica-se sem saber o que de fato ocorreu, se
foi imaginação ou realidade, se JP pereceu ou fugiu (o corpo nunca foi
encontrado), se o incêndio foi criminoso ou acidental (jornalistas de plantão:
não há qualquer B.O. a respeito nas DP´s de SP). E a verdade é: quem se
importa? Quando se trata de literatura, tudo é ficção, e a maneira, entre
intimista e descolada, com que Aramis traça um verdadeiro retrato da vida
intelectual e mundana nas metrópoles tupininquins a coloca no mesmo nível de
Nabokov, Franzen, Lessing. Aramis tem talento de sobra para ficar, deitar e
rolar. Knausgard que se cuide!
Blog do Rob, postado às 20h04m de 02/09/2014.
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domingo, 5 de janeiro de 2014
POBRE PORÉM LIMPINHO?
Rodoviária
de Capão da Canoa, manhã de verão – um pouco antes do inicio da viagem faz-se
necessária uma passadinha no banheiro feminino, surpreendentemente limpo e
arejado, com ares de recente reforma. No cubículo, a surpresa ruim: cadê o
papel higiênico? A mulher da limpeza esclarece: papel e sabonete tem que pedir
no Setor de Despacho. Não resisto ao deboche: então me passa o formulário. Não
precisa de formulário, ela explica, é só ir na janelinha que fica lá no fim do
prédio e pedir o material no setor. Minha cara de maus bofes faz com que se
apresse: se não gostou, reclama pro DAER, eles é que vieram com essa. Ah tá. A
segunda alternativa é usar o banheiro do ônibus, que fica chaveado em viagens
inferiores a 3 horas, como ouviu do motorista a passageira que dele quis fazer
uso durante a viagem. A terceira alternativa, usar o da rodoviária da Capital
dos Gaúchos (quanto orgulho, oh!), demanda o pagamento de R$ 2,25 para se
usufruir de material de limpeza de última categoria, sob supervisão da mulher
que controla a roleta para que não haja abuso, sabe como é, quem não gostaria
de roubar uma lixa como aquela?Enfim, até no mais íntimo de nossas necessidades
há um burocrata ou administrador de olho no nosso rabo, achando que está
fazendo uma grande economia surrupiando ou suprimindo material essencial à
higiene (uma irmã minha defende a tese de que todo homem tem um genoma de porco
– até agora não encontrei desmentidos). Esse tipo de ordem burra, que prevalece
nos banheiros do país de ponta a ponta, presta um desserviço tremendo à saúde
pública, como tanto alertou Osvaldo Cruz, que pra esses ignaros deve ser
zagueiro do Mengo, algo assim. Então dou uma sugestão pra turma da imprensa que
pode estar me lendo: que tal botar o dedo nessa cumbuca e ver quem fatura com
essa porcaria toda? A quem serve? Entrevista os usuários e bota médico na
parada pra dizer o óbvio: as piores pestes vêm dos menores bichinhos, esses que
proliferam justamente porque não se lava as mãos, por exemplo. O efeito colateral
de uma investigação assim seria tão benéfico quanto: por algum tempo a bobajada
das matérias jornalísticas de verão teria alguma utilidade afora o uso obvio do
papel pelos motivos acima expostos. E tenho dito.
domingo, 22 de setembro de 2013
A ARTE DE GOSTAR DA ARTE
A
ARTE DE GOSTAR DA ARTE está cada dia mais difícil. Uma expressiva gama de maus
críticos, entendidos e especialistas se esmera em espalhar “boas novas” para os
incautos que, na falta de referências dissonantes (quando a inteligência dá pra
ser burra, quem segura?) vai atrás de suas dicas e, claro, se dá mal, muito
mal. O 20º POA EM CENA foi um exemplo dessa triste sina. Esclareço que sou fã
do evento, a despeito das merecidas ressalvas, mas, em 2013, foi um show dos
horrores total. Das seis ou sete peças a
que fui, não vi UMA que me enchesse os olhos, inebriasse os sentidos, me
fizesse querer mais. Gostei de um ou dois, odiei a maioria, me conformei com
uma coisa que outra, então me pergunto: quem fez essa seleção de merda? Aliás,
foi no meio de muita merda que assisti a última peça, que me abstenho de
avaliar porque questões de natureza pessoal combinadas com um péssimo lugar me
fizeram desistir antes da metade. O fato é que o fim só veio a coroar o todo,
ruim em todas as medidas. A pior peça de todas foi a Orestéia de Ésquilo, que
não tinha ação, figurino, sequer luz exceto uma lâmpada de cozinha ao fundo do palco,
ou seja, não dava pra VER nada. Atores inaudíveis mataram o que sobrava. A pergunta óbvia: se não era pra ver, pra que
encenar? Programa de rádio se sairia melhor. Mas aí vem um carinha na ZH de
sábado dizendo ser a melhor coisa deste POA EM CENA! Isso tudo me encheu os
tubos. O pior é que esse cara não é exceção, é regra no meio da crítica (quem
teve o azar de assistir o uruguaio Hiroshima ou os últimos filmes do incensado
Terrence Malik nas telas sabe bem do que
estou falando) e, como ainda temos pela frente uma Bienal do Mercosul, com seu
viés instalatório a mil, como sói, acho que está mais do que na hora de os amantes da
arte ou, no mínimo, de um bom entretenimento, se ajudarem, da maneira mais
simples: denunciando o que não presta. Proponho que quem não gostar de um filme, peça, exposição, livro,
show, espalhe aos quatro ventos a notícia. Não precisa se preocupar em
fundamentar tecnicamente nada, nem citar estudiosos de qualquer calibre, basta
fazer uso de um ou dois critérios de bom senso e dizer: gente, é roubada, não
presta, pretensão pura, bola furada. Precisamos nos emancipar da crítica
elitista e pretensiosa que tomou conta do panorama cultural. Por uma arte que
seja prazer, não castigo.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
VIAJAR EU PRECISO
Viajar
é preciso, é o que dizem, o meio é que são elas. Dar a volta ao mundo sem sair
de casa ou sair de casa sem chegar a lugar algum, cada um escolhe o tamanho de
universo que lhe convém. A mim, de preferência, ambas as modalidades. Viajar by
plane ou by book me arrepia igual, é só questão de possibilidade, de hora.
Voltei recentemente de São Paulo, onde curti a Balada Literária por cinco dias
inteirinhos, com programação às 11, 14, 16, 18 e 20h, mais as noites no Salim,
no Platibanda, no Pinheirinho, em botecos onde a cerveja não era das mais
geladas mas a companhia não podia ser mais prazerosa. Dias a fio vendo e
ouvindo de João Ubaldo Ribeiro a Lirinha, de Vicente Franz Cecim a Macca, de
Leyla Perrone-Moisés a Miró, pra dar uma idéia da diversidade cultural em que
me meti, faceira que só vendo.
Com a FestiPoa Literária pretendemos alcançar
isso também, mas o extremo geográfico atrapalha o econômico e torna difícil
promover a invasão nordestina de que tanto precisamos. Só no meu hotel havia
pencas de pernambucanos, piauienses, paraenses, paraibanos, a PQP da
inteligência dando sopa já no café da manhã, um luxo que usufruí sem falhar
dia. Como sou do tipo que sai chiando depois de falar cinco minutos com um
carioca (ai, como te entendo Elis!), só não voltei pra Porto Alegre com sotaque
nordestino porque me atrapalhei na mistura, de modo que o tchê permaneceu
razoavelmente intacto, coisa que não posso dizer de meu espírito (aquele que
mora na cabeça, não o que assombra), esse sim capturado pela riqueza do sertão
e da caatinga, de onde até maracatu aprendi a ouvir.
A pilha de livros na mala
quase pagou excesso, mas como deixar de lado Wellington Soares, Nivaldo
Tenório, Vicente Cecim, Maria Valéria Rezende, Nina Ferraz, Demétrius Galvão,
Beatriz Grimaldi, Thiago E, Marcelo Barbão, Sylvia Mello, Tiago Savio, Sidney
Rocha? Essa foi minha sacolinha mínima, que o rol de lançamentos da Balada era
bem superior, pero hay que se fazer escolhas, hay.
O certo é que neste
continente brasileiro vários universos coabitam e nós, sulistas, estamos demasiado
longe da maioria deles, por isso com tanta freqüência nosso umbigo inflama e
nos faz pensar que somos o máximo do
apogeu da glória em matéria de tudo. Confesso ter ficado com inveja quando
Garanhuns entendia plenamente o que Teresina estava dizendo, que um esteio
comum se impunha. Nosso senso comum é pampeano, se espraia pra fora, e não pra
dentro do Brasil, o que nos dá uma desvantagem enorme na portuguesia em geral.
Porém,
como distâncias cada vez mais se tornam irrelevantes com essa tal de internet,
é só questão de voltar os olhos e os sentidos em outra direção que esse buraco
acaba rapidinho. Porque é urgente, urgentíssimo, que os gaúchos ouçam a voz de
Jomard Muniz de Britto e Wilson Freire, prestem atenção ao coro das Clarianas,
dancem ao som do baião, mergulhem no universo de Andara.
Como repetia o bruxo
do Oficina, José Celso Martinez Correa, num mantra que fez o maior sucesso
entre os teatreiros gaudérios: é de dentro pra fora! É de fora pra dentro! é de
dentro pra fora! É de fora pra dentro! Bora desinflar o umbigo, bora!
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
MEU CORAÇÃO HARDCORE
Meu
coração amanheceu hardcore e eu não to a fim de quem se faz de poeta, mas não
passa de um pateta pendurado num poste pra puta Gaga ver melhor.
Meu
coração amanheceu hardcore e eu não to a fim de agüentar verso de florzinha,
nem cara fazendo um sonzinho com seu violãozinho que sequer conhece João.
Meu
coração hardcore dormiu pedra e acordou leão, afônico e careca de tanto rugir à
toa.
Meu
coração hardcore está sem paciência para louvar os esforçados executores das
letras pátrias e apátridas também.
Meu
coração está saco zero, ou perto disso.
Meu
coração amanheceu sem vontade de se doar, cooperar, salvar o gatinho ou a
vovozinha, dar tchauzinho.
Meu
coração amanheceu hardcore. Cheio de nãos: não acredita em budismo de
PowerPoint, em cachorro de três pernas, metrossexual em geral, vampiro vegan,
margarina sem gordura trans, virgindade aérea, sabedoria de Facebook. Não.
Meu
coração hardcore não está para santidades. Nem papas nem mães contarão com sua
clemência hoje.
Haja
o que houver, meu coração amanheceu hardcore. Faz questão de escolher seus
ódios a dedo, sem medo de errar. Também erra seus amores a dedo, certeza
absoluta. A desarmonia é o seu arado.
Meu
coração hardcore acha que foder é bom, mas não recomenda. No sex, no, no, no. Sofre de complexos. Não vitamínicos. Curte migalhas:
olhar de viés, cabeça no ombro, sugestão de filme, bala azedinha direto na
boquinha. Tudo em vão, meu coração é sabidamente incompetente. It´s hard, so hard.
Como lidar com um músculo que teima em não se
fazer notar quando já botou tudo a perder. Tudo? Não, mentira. Verdade
verdadeira é essa que vos digo amores perdidos: nunca tive peito pra botar na
roda o que, aos outros, parece sobrar.
Meu
coração não acredita nesses outros. Meu coração hardcore não. Para ele, verbo
que é verbo não se conjuga se joga. Doido. Continua mentindo, vai, continua!
Meu
coração retardado: hardcore em tempo de rap. O rap não morre nunca, abaixo o
rap! Quem fala pra não cantar merece se danar, mas não conta pra ninguém, tá?
Meu
coração hardcore detesta se incomodar, o idiota.
Meu
coração hardcore tem raiva de tudo suportar. Gosta mesmo é de viajar na veia.
Sem pico, só no fluxo. Ouvindo Stones a rolar, rolar, rolar.
Meu
coração hardcore vive de ar, com quase nada pra cuspir e pra beijar, seco e
brabo.
Meu
coração hardcore não sabe fazer poesia, nem extrair alegria da paixão. Então
qual a razão? pergunta o esteta. Ora, posar de poeta, seu bobo.
Meu coração hardcore.
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