Cry Baby
Cry Baby
Baixar Arquivo
Um lugar que Claudio Santana semeou para Clarice Muller escrever e apreender, como é da boa arte a vida colhida.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
AS DORES DO AVESSO
Vidraceiro,
fumageiro, jornalista, industrial, minerador, impressor, acadêmico, tabelião,
comerciante, capitão da guarda, escritor. Não seria por falta de idéias que Netinho,
como a ama o chamava, deixaria de fazer sucesso nas bandas de Pelotas, onde
nasceu nos idos de março de 1865. Terceiro na linhagem dos Lopes, desde piá o
guri não sossegava, inventando de tudo pra não sair de perto da peonada, para
desgosto da viscondessa, mais orgulhosa do título que do neto, para o qual, de
resto, não via muito futuro. Mesmo
assim, mandou que caprichassem na bagagem que o acompanhou ao Rio de Janeiro
quando a puberdade no meio da bicharada tornou-se mais incômoda do que
educativa. A capital federal haveria de ensinar-lhe os modos que os meios
exigiam. Ensinou-lhe muito mais do que isso. A começar pelo clima. O calor
constante, que no início não o deixava dormir, com o tempo foi amansando-lhe o
corpo, relaxando os nervos, desobstruindo caminhos que sequer sabia existirem. E
que se intensificaram expressivamente quando conheceu Olavo, com quem viria a
compartilhar os bancos na faculdade de medicina, poemas discutíveis e, segundo as
más línguas, muito mais do que línguas. Presença constante nas soirées
promovidas por Machado, presença infalível nos teatros e cabarés da Lapa, João
não se fazia de rogado quando o entrudo tomava as ruas e poás e lantejoulas
substituíam o pincenê que o deixava mais vesgo ainda. Nessas horas a descontração
era total, com a dupla Joanita & Bilaquinha causando tanto furor que o
velho visconde não teve outra saída a não ser trazê-lo de volta ao hospitaleiro
ar das charqueadas sulistas. Com a desculpa de saúde frágil, ficou sob a asa
materna até que o avô lhe arranjasse a esposa que assegurasse a honra e a
progênie que nunca veio. João fez a sua parte. Deixou crescer o bigode, passou
a usar óculos e, do antigo amor, preservou apenas o vício de comer negrinhos a
qualquer hora do dia. E umas odes líricas muito bem guardadas no forro de um
antigo chapéu, hoje no museu histórico franco-pelotense. No mais, austeridade
total. A única foto que escapou da destruição movida por Francisca, ao
suspeitar das longas viagens empreendidas por seu marido com o capataz Blau, mostra
um homem sisudo, rosto afilado, olhar baço, idade indefinida, sem atrativos
aparentes. A obra literária que legou a seus conterrâneos, porém, revela um
homem de fina verve, irônico, astuto e observador como poucos. A construção de
tipos como Romualdo, os ‘causos’ por ele narrados em linguagem popular, sem
meias palavras, a imaginação brotando intensa em cada linha, a fantasia que se
assenhora da narrativa sem preocupação formal, fluindo vívida aos olhos do
leitor, tudo leva a crer que o escritor manteve viva a chama que conheceu em
terras cariocas e que prematuramente teve que relegar ao abandono. Rompendo uma
tradição europeizante voltada ao cultivo dos valores mais aristocráticos, e
focando a narrativa em seres até então sem a menor expressão social, as
histórias geradas em sua terra natal (publicadas postumamente) passam a ser entendidas
como elegias ao bravo homem do campo, seus costumes e raízes. Uma nova vertente
acadêmica sustenta, porém, com base em diários encontrados num prédio em
demolição, que João criara tais tipos com intuito de ridicularizar a cultura
grosseira em que fora criado e que era incapaz de reconhecer o valor de um
homem como ele, constantemente escarnecido pelos gestos e voz delicados, pelo
sotaque levemente afrancesado que fazia questão de cultivar e até mesmo pelo
hábito de vestir a mais fina casimira inglesa quando em inspeção pelo campo.
“La revanche de la ‘biche’” seria o título mais adequado à obra do escritor,
segundo essa tese. Louvação ou crítica,
elogio ou deboche, o fato é que João Simões era um ser atormentado, que se
envolvia em empreendimentos de todo tipo, sempre em busca do quê não se sabe,
tamanha a diversidade de suas invectivas. Riqueza? Prestígio? Conhecimento?
Poder? O vidraceiro, fumageiro, jornalista, industrial, minerador, impressor,
acadêmico, tabelião, comerciante e capitão fracassaram em sua tentativa de
resposta, conhecendo a morte aos 51 anos de idade, em completa pobreza, sem
deixar semente. O escritor, porém, sobreviveu a todos. Pena que vingança seja
prato que se come frio.
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
DING-DONG: A CIDADE CHAMA
Dizem que Érico Veríssimo, quando
indagado sobre a cidade em que vivia, respondia com orgulho: sou de uma cidade
que tem uma orquestra sinfônica. Já eu,
Clarice Müller, nascida e criada nessa mesma cidade, respondo, com vergonha:
sou de uma cidade que acolhe com festa um shopping, mas rejeita que sua
sinfônica ali se instale; sou de uma cidade que por décadas aguarda a finalização
de um teatro dedicado à sua maior cantora; sou de uma cidade que acabou, sem
pestanejar, com o carnaval de rua, e jogou o que resta para os confins mais
inabitados; sou de uma cidade que canta as façanhas do passado, mas desdenha a
arte do presente; sou de uma cidade que impõe toque de recolher a seus
habitantes. Sim, agora diversão e arte cumprem expediente de escritório. Agora
a ordem é cineminha e cama, comida em casa, que na saída tá tudo fechado. Como
a cabeça de quem nos governa. Fechar bares,
isolar torcidas, logo, logo, cercar parques, isso lá é jeito de se administrar
uma cidade??? Porém, como sociedade se
faz fazendo, se os comerciantes, empregados, clientes, artistas, tutti la gente
se juntarem, dá pra dar um basta nessa idiotice. Impor respeito, sabe como é?
Não aceitar a muquiranagem como destino histórico, o sono como ideal de vida, o
tédio como meio, a mediocridade como fim. Cidade-dormitório? Vão se catar! É
preciso pensar e agir grande, transformar Porto Alegre num pólo irradiador de
cultura, com o diferencial que um Village, uma Lapa trazem em prol da
felicidade geral da nação, na falta de neve e chocolate amargo, claro. Não dá é pra dormir no ponto. Achar que, com o
tempo, tudo se ajeita, se resolve. Ahã. Foi com toque de recolher que acabaram
com o Bomfim, que só agora, mais de duas décadas passadas, lentamente ressurge.
Quer ver esse filme de novo? É só cruzar os braços. Falando claro: estou
incomodada, mas não vou me mudar, eu
proponho é mudar. Junto contigo.
Topa? Então compartilhemos, pois.
PS: NAO SOU CANDIDATA A NADA.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
PÉ ANTE PÉ
Pé ante pé
Dia a dia
A cerca é a mesma mesmo sendo outra
A vida é a mesma mesmo sendo outra
O que se repete é o fugaz da memória
Das lajes rosadas
Dos muros de hera
Do riscado do jogo:
Amarelinha, sapata, gude
De quem nunca alcança o céu.
Agora os passos são outros
E mesmo assim são os mesmos
Sem poesia
O pichador despenca a letra
Quebra a costela – não a pose
É gangue! é gangue! é gangue!
Do térreo-fundos em que me encolho
Gritos sirenes buzinas estampidos
Varam a madrugada que já conheceu
Meus passos, meus sonhos, meu baco
E agora faz roer a bruxa que há em mim
O toque de recolher matou a folia
Adeus, sinfonia
Porto Alegre Porto Seco de alegria
A cidade quer dormir
A cidade quer morrer
Pé ante pé
Noite após noite
A cerca eletrifica o gato
Mas não alcança o rato
Na medida do possível
Meu desamor é todo teu.
Porto Alegre é (fill the blank) demais.
sábado, 30 de junho de 2012
O HOMO FICTUS DE LAF
Belo texto esse do Homo Fictus no
caderno Cultura da ZH de 30/06/12. Gostei da tabelinha da literatura, seis
verdades indissolúveis sobre a literatura como alimento de primeira
necessidade, mas me ative principalmente na Imaginação. Isso porque estou coincidentemente
na leitura desse tópico em Jovens de um
novo tempo, despertai! De Kenzaburo Oe. O livro faz parte da coleção Nobel
da Cia. das Letras e tem como tema a relação de um escritor com seu filho
primogênito, deficiente mental. Em meio a estudos sobre o poeta Blake (às vezes
um tanto cansativos, mas bem elucidativos sobre o cara), o escritor resolve
criar um dicionário de definições para auxiliar o filho na sua ausência, de
modo a que ele entenda, por exemplo, o que é morte. No capítulo que estou
lendo, porém, ele se depara com o conceito de Blake sobre Imaginação: “A imaginação não é um estado: é a própria
existência humana”. A partir disso, o grande tormento do escritor: como
identificar a imaginação no filho excepcional? Ele se pergunta: “De que forma a
imaginação existiria em Iiyo? Essa questão se agiganta e aflora. Mas na verdade
foi com o intuito de chegar a tal questão que vim fazendo desvios até agora.
Iiyo, você tem imaginação? Caso tenha, de que forma ela funciona? Até hoje,
experimentei diversas vezes a dor de lhe fazer essas perguntas. Creio até que descobrir
a resposta para elas é, antes de mais nada para Iiyo, naturalmente, mas também
para mim, a maior dificuldade da vida. (...) como poderia eu reconhecer com tranqüilidade
de espírito que meu filho é desprovido de imaginação, a função básica de toda a
existência neste mundo?”.
Acho que nunca tinha pensado seriamente
nesse assunto talvez porque ele esteja tão entranhado em mim que não consiga
vê-lo como um valor acessório ou inexistente, mas a combinação de Kenzaburo Oe
+ Luis Augusto Fischer me deu o que pensar. Imaginação é, de fato, alicerce,
não só da literatura mas da existência, como dizia o Blake. Não dá nem pra
imaginar como é não imaginar, e, no entanto mesmo para isso precisamos de
imaginação, como faz o pai-escritor de Iiyo. Gostei, LAF. Tnks.
terça-feira, 1 de maio de 2012
FESTIPOA GOODBYE
Acabou. Com
chuva, algum vento, um frio que chegava sorrateiro e tomava conta do espaço
onde a festa rolava despacito, despacito, como se houvesse muito tempo. Não
havia. Aquele era o dia predestinado, todos sabiam disso. Começara cedo, quando
a umidade ainda se concentrava nas cumulus nimbus que se aglomeravam no
horizonte. O pessoal da técnica ocupando os elevadores com câmeras, microfones,
fios, muitos fios, a gurizada da produção empilhando e empurrando cadeiras de
uma sala para outra, telefones e torpedos tilintando a toda hora. Quem já
chegou, onde estão, pra onde, como, quando, quantos, então tá, vamos ver, ok?
Chega a hora
marcada, passa a hora marcada, público e convidados se ajeitam, se apresentam,
soltam o verbo, João, Miguel e Carlos esbanjam o que sabem, os bocejos rareiam,
a platéia se deleita e dê-lhe perguntas e dê-lhe respostas e o dia alcança o
brilho para o qual fora proposto. Bons augúrios. Depois ainda tem a arte de
Drummond, a voz do ventríloquo, quilates de poesia lida e contada em mais de
seis minutos, o samba de Fabiana, Paulo e Marcelino, a música de uns carinhas
bem legais, mesas arredadas pro povo
sacolejar e beber e dizer a que veio e essas coisas todas que se diz e troca
quando a despedida é iminente e as saudades se prometem eternas.
Foi aí, bem
aí, no meio do começo do júbilo da missão cumprida e s´mbora partir pra outra,
que me bateu uma tristeza de fim de mundo, fina como se preza dor de fato, sem
consolo de remédio. Não carecia fazer balanço pra descobrir a origem: quando a
bênção é grande, adeus é maldição. Mas deixe estar, ano que vem tem mais. Mais
escritores, mais livros, mais inteligência exposta, mais do mais e do melhor,
que o Fernando é (pelas mais variadas razões) nosso pequeno príncipe: responsável
pelo que cativa. E isso, meus amores, não é pouco não, nem aqui, menos ainda na
China. Hasta la vista, babies!
domingo, 22 de abril de 2012
DE OLHO EM VOCÊ
Sabe
aquela coisa de as pessoas lembrarem exatamente onde estavam quando souberam da
morte de Kennedy, Elis ou Mamonas? Pois eu lembro exatamente onde estava quando
o vi pela primeira vez: na frente da bailarina. Ela era linda e não era a
única, várias delas se espalhavam pela sala, com seus tutus, pés em ponta e
braços em arco, mas apenas ela enfiava o dedo no nariz enquanto a outra mão
coçava a bunda. Bailarina com ranho e olho do cú, tai uma coisa que eu gosto. Então posso dizer que ela me pegou de jeito,
cativa, cativa, cativa, até que precisei respirar, virei para o lado e... bam!
Lá estava ele. O azul da íris explodindo contra o amarelo da face, olhando pra
dentro de mim, sem meios tons. A bailarina que se dane, devo ter pensado,
porque num zás-trás estávamos cara a cara. Coração aos pulos, afinal, ELE
estava diante de mim. Passara a vida vendo-o em revistas, livros, filmes, porém
nada me preparara para o tête-à-tête implacável com a força do homem que
digladia contra sua sina, a cor, a dor, que se faz beleza, que se faz arte. E que
me deixa ali, sozinha com toda a humanidade. Haja! Passado algum tempo,
pulsação cardíaca já voltando ao normal, desperto para o mundo em volta. Lá estão
os corvos, os girassóis, o quarto. Onde se viu pintar desse jeito? Então, meu
recado é este: eu não espero que você pinte como Van Gogh, que esculpa como
Degas ou me faça tremer nas bases só porque não tenho nada melhor a fazer nos
domingos à tarde. Tudo o que espero é poder entender sem ler, algo como um
vapt-vupt estético em que nos encontramos no meio do caminho de nossos saberes
e referências e faz-se a luz. Simples. Nada de palavras pra enfeitar ou
esclarecer o que não fala por si. Entendimento não é defeito, hermetismo não é
galardão, então não te faz de besta e vem com tudo, sem meia boca, sem medo de
contar, de mostrar, de gritar, de expor o ranho. Porque senão, meu querido, vou
te mandar tomar no cú. Como uma bailarina.
Assinar:
Postagens (Atom)